sexta-feira, 21 de março de 2014

Doce passado amargo

 Antes de começar a ler este texto, devo avisá-lo de que não é um texto feliz.
 Nos comunicamos pela primeira vez em um banheiro. Ele me pegou em suas mãos e olhou-me com aqueles profundos olhos tristes de maneira sentimental. Beijou-me e hesitou. Queria mesmo isso? Tentei comunicar-me com o humano, dizendo-lhe que tudo ficaria bem. Desenhei o amor em seu corpo, e acho que ele entendeu.
 Passamos a nos ver frequentemente desde então. Eu me alegrava sempre que o via, mas ao mesmo tempo me sentia muito errado. Ele sempre me olhava com aqueles olhos depressivamente tristes. Lágrimas caiam de seus olhos. Queria acolhe-lo com meus braços, mas eu não tenho braços. Queria dizer-lhe que tudo ficaria bem, mas não tenho boca. No final, acho que eu o ajudava de uma forma diferente.
 Depois de certo tempo, apenas nos encontrávamos. Ele me encarava com aqueles mesmos olhos, e apenas isso. Paramos de desenhar. Eu sabia de tudo sobre ele, e era a única coisa que o entendia. Não queria me separar, acho que estava me apaixonando. É impossível, eu sei. Não posso ter sentimentos, mas eu os tinha. Deve ser por isso que doeu tanto quando ele me deixou.
 Depois de alguns meses, senti que ele estava diferente. Parecia aliviado, relaxado. Mas eu não era o motivo. Passamos a nos ver cada vez menos, e aos poucos fui sendo deixado de lado. Acho que entendo. Quando não precisamos mais de algo, deixamos-o de lado. E foi isso ele fez comigo. Ficou feliz e me deixou de lado. Parou de desenhar comigo. Me esqueceu. Me deixou. Estava melhor sem mim.

A.R.O.M.

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