terça-feira, 1 de abril de 2014

Espelho

 Dentes. Dentes. Para dentro e para fora. Movimentos circulares, e por fim o gargarejo.
 Impecável, sinto inveja de seus olhos, inveja de seu sorriso, inveja de seus cabelos, de seu sofrimento. Inveja de seus cabelos, de seu sofrimento. Inveja de sua vida, por que é real, e eu uma imitação.
 Ele envelhece, eu não. Ele chora, eu não. Do que sou capaz? Sou apenas uma imitação. Imitação de seus gestos, sentimentos, mágoas. De sua vida. Não passo de mera imitação.
 Sorriso. Sorriso. Sorriso. Ás vezes uma câmera, ás vezes uma escova, outras um pente, e outras seu coração. Sou seu gêmeo de toda a vida, o companheiro irreconhecido. Sou o que ele foi, o que ele se mostra e um dia serei uma cópia mal feita do que ele será. Sou o reflexo de seus medos, de seus fracassos, de suas buscas. De sua luxúria, de seu amor. O reflexo de seu egocentrismo.

A.R.O.M.

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